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Artur Xexéo: Os muitos acertos do musical ‘Gypsy’

Montar “Gypsy” não é tarefa fácil para qualquer teatro do mundo. Para começar, é preciso escalar uma atriz veterana, exuberante, de voz potente e com uma carga dramática à flor da pele. Não é por acaso que o papel foi escrito para Ethel Merman, talvez a voz mais potente que já tenha sido abrigada pelo teatro americano. (Não se deixe enganar. Apesar do título, Gypsy Rose Lee não é a protagonista do espetáculo.Toda a trama gira em torno de sua mãe, Mamma Rose).
 É preciso também uma atriz jovem que cante bem e dê conta do único personagem que se transforma durante a peça. De menina ingênua e retraída, Gypsy transforma-se na exuberante rainha do strip-tease. Há ainda um galã veterano de voz bonita e necessária empatia com o público. Para complicar, é preciso um elenco grande de crianças talentosas e um cachorro carismático — como todo mundo sabe, crianças e cachorros costumam roubar a cena no teatro. Além de um score que contém algumas das canções mais bonitas já cantadas num palco — uma orquestra afiada é fundamental —, é preciso fazer versões para as letras de Stephen Sondheim, o compositor da rima inesperada, das imagens poéticas, da sofisticação em forma de poesia. Último desafio: convencer o público de que aquela situação, que conta parte da História do teatro americano, mais especificamente da passagem do teatro de variedades para o burlesco, gêneros tipicamente americanos, pode ser interessante mesmo para plateias que não tenham intimidade alguma com o que está sendo narrado. São incontáveis os obstáculos de uma montagem de “Gypsy”. E a versão que Charles Möeller e Claudio Botelho apresentam no Teatro Villa-Lobos ultrapassa todos eles.
Talvez as muitas questões a serem resolvidas façam com que, pelo menos nesse começo de temporada, o “Gypsy” brasileiro aposte na técnica e deixe um pouco de lado a emoção. Fica a impressão de que, se todos relaxarem, o prazer de cantar aquelas canções sensacionais torne o espetáculo mais vibrante.Mas não dá para criticar o empenho de todos os envolvidos.

 Totia Meireles tem uma característica que joga contra seu trabalho: uma aparência jovem demais para ser Mamma Rose (o papel, depois de Merman, foi de Bette Midler, Bernadette Peters e Patti Lupone, entre outras). Mas ela, sem dúvida, tem o temperamento certo para viver a protagonista, e sua entrega ao personagem é contagiante. No número final, quando está sozinha em cena e precisa transmitir o quanto foi patética a vida de sua personagem, ela arrasa. Mesmo tendo a partitura mais difícil do espetáculo, ela convence como cantora. Poucas atrizes seriam capazes de fazer Mamma Rose no Brasil.
Adriana Garambone vive uma situação oposta. Parece um pouquinho além da idade para uma Gypsy que começa o show adolescente. Mas ela convence o espectador de sua fragilidade, no primeiro ato, e de sua exuberância, no segundo, sem problemas. É também uma surpresa como cantora. Sua interpretação de “Little lamb” é comovente. Além disso, está linda, como Gypsy deve ser.
Eduardo Galvão é outro acerto do elenco. Voz bonita, presença marcante, mas sem tentar roubar a cena, dá um banho de simpatia num personagem que tem mesmo que conquistar o público desde a primeira aparição.
Não há um ator deslocado em “Gypsy”. Todo o elenco infantil é simpaticíssimo e cumpre bem suas coreografias. Como as três strippers que ensinam os truques da profissão a Gypsy, Ada Chaseliov, Liane Maya e Sheila Mattos estão divertidíssimas. Möeller e Botelho só não tiveram coragem de botar um cachorro de verdade no palco, o que faz com que ninguém corra o risco de aquele bicho de pelúcia roubar a cena.
O musical ainda tem, sob a regência de Marcelo Castro, uma orquestra ótima — a melhor da safra mais recente de musicais cariocas — e versões de Botelho sensacionais — a melhor da safra recente de versões de Botelho. Para um musical, esses dois quesitos são fundamentais.
Para uma superprodução, “Gypsy” peca pelos cenários. Eles não enchem os olhos, como se espera de um espetáculo tão caro. Pior que isso, sua estrutura dá a impressão de que, apesar do troca-troca incessante, a ação nunca muda de lugar. Às vezes, o palco está vazio demais, como na cena do restaurante chinês; às vezes, está atulhado demais, como na cena que antecede o primeiro strip-tease de Gypsy.
A luz também não é o ponto alto da montagem. Ela esfria a cena, ajudando a deixar a impressão de que há pouca emoção no palco.
Os figurinos também não se destacam, mas são bem-acabados e de acordo com o período coberto pela ação. Talvez sejam muito realistas, como na aparição das três strippers decadentes, uma cena que, por sinal, é pura fantasia.
“Gypsy” é mais uma prova da maturidade do musical como gênero nos palcos do Rio. É um clássico muito mais difícil de ser realizado do que, por exemplo, “A noviça rebelde”, outro acerto recente da dupla Möeller e Botelho.
E só o fato de a música de Jules Styne e Stephen Sondheim estar em cartaz mereceria uma ida ao Villa-Lobos. Mas Totia, Adriana, Galvão, a orquestra e todo o elenco fazem com que “Gypsy” seja um ponto alto da atual temporada.

Artur Xexéo – O Globo – 05/05/10 /Fonte: Site Gypsy O Musical

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